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Ou a gente escreve ou essas coisas vão ficar perdidas no tempo para sempre. Eu costumo dizer que as coisas e os fatos existem enquanto nos lembramos deles. Quando não há mais quem se lembre, eles simplesmente desaparecem, e é como se nunca tivessem existido. Aqui ficam registradas portanto, algumas façanhas do pequeno João Pedro, hoje com 15 anos, meu irmãozinho caçula tão querido e extremamente paparicado. Os posts vão até o ano de 2004, quanod o JP tinha 6 anos.

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Soteropolitana, bairrista, escritora desde os 8 anos, noveleira, conrintiana, louquinha pelo Paul McCartney. Amo muito chocolate e beijo na boca (do meu marido, claro!) 

Friday, October 25, 2002

AMARRAR OS SAPATOS

Nossa, me deu uma vontade louca de chorar hoje de manhã!
No início da semana ensinei JP a amarrar o sapato. (creio que isso é importante que as crianças aprendam ainda na pre-escola, pra não chegar abestalhada como eu na 2a.série primária sem sabê-lo).
Ontem perguntei-o se ele aprendera mesmo. Ele garantiu que sim, e eu disse, "Tudo bem se você se atrapalhar, pode pedir ajuda."
Hoje de manhã, de meu quarto, escutei-o conversando com seus bichinhos de pelúcia enquanto se vestia para a escola, "...pois eu já sei amarrar meu sapato. Vika me ensinou."
AAAAAAAAHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!! Mata essa irmã do coração!!!!!!!

Thursday, October 24, 2002

NUNCA SUBESTIME O ENTENDIMENTO

Pois é, as crianças começam a entender as coisas muito antes que nós nos demos conta.

Essa semana, viajando com JP, eu comentei com ele, "Estou com um problemão para resolver."

"Que problemão?" indagou interessado.

"Um problemão que eu me meti porque sou burra."

"O que foi?" ele insistiu.

"Deixa pra lá, filhinho. Você não vai entender. Você só tem seis anos."

Ele olhou pra mim muito sério e contou, "Vika, na minha escola as meninas me contam muitos segredos. E eu nunca conta pra ninguém. E também não conto os segredos dos meninos. E quando as meninas me pedem pra falar de Miguel e eu falo. Então você pode me contar seu problema, que eu sei entender."

Tuesday, October 22, 2002

VOCAÇÃO DE INCENDIÁRIO

A tia Léa não vai gostar muito deste título, mas sem dúvida é o que melhor exprime a idéia dessa historinha.

O fato que agora me ponho a narrar é a prova mais crassa de que "quem puxa aos seus não degenera" e que certas coisas, como vocação para incendiário, correm no sangue.

João Pedro, aos seis anos de idade, quase tocou fogo na casa da avó, dando continuidade à tradição iniciada pela sua mãe, e perpetuada por seus dois irmãos mais velhos.

Era uma linda manhã de domingo e o sol brilhava. JP acorda e vai ao quarto da avó. Ao encontrar ali um abajur com uma cobertura muito bonita, com estrelas vazadas, ligou a luz e voltou para seu quarto.

O pequeno só não sabia que a lâmpada usada era muito quente para a cobertura, feita de um material rústico muito pouco resistente ao calor.

O objeto começou a queimar.

Vikinha, a irmã mais velha, já acordara, mas ao ver o menino voltar para o quarto, não suspeitou de nada. O cheiro de fumaça era evidente, mas eu não imaginaria que fosse dentro de casa, até porque vovó já estava de pé há algum tempo.

Levantei-me, fui até a cozinha com JP e comentei com voinha: "Cheiro de fumaça, não?"

"Olha ali o que foi!" ela disse. O rapazinho foi ao quarto e voltou assustado: "Tem fumaça no seu quarto, vó!"

A cobertura do abajur já estava se consumindo em fogo.

Oh, que fro na espinha quando penso que poderíamos ter saído para a igreja sem ter visto! Adeus apartamento. Adeus prédio. MEUS DÓLARES! Todos os meus dólares para minha viagem para os Estados Unidos!!! Fruto de anos de trabalho árduo e economias! Adeus, viagem aos States!!!! Meu sonho janela abaixo! Ai, que dó só de pensar!!!!

Por que seria essa uma vocação familiar? Bem, a mãe por volta da mesma idade do menininho, ligou um abajur velho na casa da avó. Um curto no aparelho fez pegar fogo na fiação elétrica, por dentro da parede que foi ficando toda preta.

Os irmãos de JP, foram pelo mesmo caminho, mas já tinham cerca de 12/13 anos. Leo, sempre foi muito traquinas, e Vika era do tipo "Não faz isso não menino! ... Que legal! Deixa eu fazer também?"

Bom, Vika estudava em seu quarto, quando notou que Leo estava muito quieto trancado no quarto da mãe.

"Leo o que é que cê tá fazendo?" Perguntei ao entrar no quarto e encontrar meu irmão com uma garrafa de álcool nas mãos em um quarto fechado, com chão de taco, e mobília tda de madeira.

"Vika, olha só que legal!" Jogou um pouco de álcool no chão, e riscou um fósforo.

"Minino! Você é maluco!? Pare com isso agora! Não está muito velho para brincar com fogo?" Mas minha reprimenda durou somente até eu ver o fogo consumindo o álcool no chão de madeira e desaparecendo. "Que legal! Deixa eu fazer também?"

E ficamos ambos a jogar álcool no chão e queimar fósforos. A um triz de tocarmos fogo na casa. Por pouco não o fizemos. Por um milagre Vika e Lelas estão vivos hoje, e não morreram carbonizados graças a suas próprias travessuras numa idade na qual já deveriam saber que com fogo não se brinca!!!!!!

JÁ SEI RIMAR

Dois dias depois eu chego em casa. Nas últimas semanas eu o estava ensinando a andar na bicicleta grande. Mas nesse dia eu cheguei em casa e ele me avisou. “Vi, já almocei! Vou andar de bicicleta.” “é mesmo filhinho? E quem vai olhar você?” “Ninguém! Eu já sou esperto e já sei rimar animal e papel!”

NADA DE ESPINHAS

Ainda seguindo a filosofia da terapia do medo... Eu cheguei em casa e não achei almoço. “Faça uma farofa de ovo.” Mamãe sugeriu. Va benne. Farofa de ovo. Mas não matou a fome. Lembrei-me de uns iogurtes que estavam na geladeira. Abri-a, mas nada encontrei.
“Tá procurando o quê, Vi?” Perguntou meu irmão de 6 anos de idade.
“Iogurte.”
“Eu comi.”
Parei. Fechei a porta. Peguei o guri pelo braço e perguntei sem acreditar:
“Você o quê, meu filho?!?”
“Comi!” ele disse com naturalidade.
“Não pode ser! Espere, está lá em cima, na geladeira do quarto!”
Saí da cozinha em direção ao segundo andar.
“Espera, Vi!” Ele disse abrindo a geladeira. “Tem isso aqui.” E mostrou-me um saquinho com um líquido branco que até então eu não identificara.
“Que é isso, meu filho?”
“Aquele negócio que a gente coloca no hamburguer.”
“Maionese?”
“É.”
“Não, fofão, isso não é bom, não.” E corri escada acima. Ao abrir a geladeira do quarto descobri que realmente não havia mais iogurte restante. Volto descendo desolada, quando encontro a meio caminho, o pequeno JP chupando a maionese. Fiz menção de pegá-lo, ele preparou-se para correr, então resolvi usar um pouco de psicologia.
“Vem, cá, mocinho, deixe eu te contar um história.”
Ele deixou que eu me aproximasse. “Você está vendo esses pontinhos vermelhos no rosto de sua irmã?”
Ele acenou.
“Pois é, eu quando tinha seu tamanho comia muita maionese e catchup. Aí, ficou tudo no meu corpo e quando eu cresci saiu esse monte de espinha em minha cara. O guri me botou dois olhos arregaladíssimos e entregou-me a maionese. “Quero mais não, Vikinha.”

EXAME DE SANGUE

Mas vá ser frouxo assim na tonga da mironga! Exame de sangue é uma coisa inconcebível na concepção de coragem de JP. Lá com seus 6 anos incompletos ele foi a Salvador comigo fazer exame de sangue. Chegou no hospital muito falante, bricalhão, conversador... até o momento em que foi chamado para a sala onde se fazia a coleta. Ao reconhecer o ambiente, sua fisionomia mudou, decaiu-se-lhe o semblante, ele agarrou-se à mãe e à irmã em desespero. Uma complicação para colocar essa criança na cadeira e amarrar-lhe a borrachinha ao braço. “Eu tô com medo” repetia o pirralho. “Que bobagem, neném, olhe só sua irmã! Faz esse exame direto e nem chora.” Eu tentava consolá-lo. Tarefa inútil.
“Agora feche a mãozinha, garotinho.” Pedia a enfermeira. Inutilmente. Necessário duas enfermeiras e mamãe para segurar a criança e tirar o sangue. E, enquanto Vika procurava desviar-lhe a atenção, ele gritava em desespero “Me ajuda, Vika! Me ajuda, Vika!”

Desculpem, de coração, mas perante tamanha covardia, Vika não pôde conter uma gostosa gargalhada.

UM SACO DE BATATAS

“Você é um homem ou um saco de batatas?!” é a pergunta que eu faço ao moleque todas as vezes que ele começa a chiar por Ter que dar uma paletadazinha comigo até a locadora. “Um saco de batatas.” Responde o safadinho.
Bem, um dia em casa de vovó, ela me incumbiu de descer as escadas do prédio com o saco de batatas para ele descobrir umas maravilhas da infância vivida em apartamento: descer as escadarias do prédio em queda livre, pulando dois, três degraus de uma vez só, ignorando por completo uma das grandes invenções do mundo moderno – o elevador.

Bom, descemos. Chegando ao playground brincamos um pouco e resolvemos subir. “Vamos de escada!” eu sugeri, impulsionada pelo clima infância que me invadira a alma naquele momento. “Vamos.” Concordou a pobre criança. Eram somente 22 lances de escada. Do sétimo ao 18º andar. Mas ao chegarmos ao apartamento o menino já se arrastava de quatro pés pelos degraus. “Eu sou um saco de batatas! Eu sou um saco de batatas!”

DOENÇA RUIM

E falando em susto, que tal o dia em que ele teve de tomar a famosa anti-tetânica?
Eu morria de medo de ver a criança brincando m lugar que tivesse ferro velho, com aspecto enferrujado, especialmente depois que meu grande amigo Lúcio, um médico apaixonado pela sua profissão, me deu uma descrição bem realista do que é uma pessoa com tétano.
Não podia ver JP aproximando-se de um prego ou pedaço de ferro que já gritava, “Meu filho, não chegue perto disso aí. Se você se corta nesse bicho pode pegar uma doença muito feia. Pode até morrer!”
Terapia do medo, é isso aí.
Bem, um belo dia vamos chegando em casa, ele, mamãe e eu, e JP vai direto para cima de umas vigas de metal de uma construção ao lado de casa. “JOÃO!!! Desça já daí!!! Se você se corta pode pegar uma doença muito feia!”
Tarde demais. O guri já havia arranhado a mãozinha. Desceu num instantinho e passou fino pra casa. Caladinho o coitado pôs-se a chorar. “Tá doendo muito!” Ele gritava para mamãe. Bem a gente sabia que o choro não era de dor, mas de medo. Tudo, bem, uma injeçãozinha não faz mal. E acho que ele não se aventura mais em metais velhos tão cedo.

TRATAMENTO DE CHOQUE

João Pedro aos dois anos de idade era um menino impossível. Diz o ditado que a experiência é um professor muito duro, pois dá a tarefa antes e a explicação depois. Bom, sem dúvida é melhor aprender com os erros dos outros, pois não se vive o bastante para cometê-los todos. Mas a verdade é que tem certas coisas que as crianças só vão aprender por elas mesmas.

Havia no meu quarto uma entrada de tomada que estava descoberta. Estava eu sentada na minha cama fazendo as unhas do pé enquanto o pequeno infante brincava com uma coisinha qualquer. Logo aqueles buraquinhos chamaram-lhe a atenção. Lá vai ele botar o dedinho no buraco.
“Meu filho, não!”
Fui lá e tirei-o de perto da tomada. Tive que repetir a mesma ação umas duas ou três vezes, explicando-lhe que aquele buraquinho dava choque, e que doía muito.
Voltei às unhas e no momento em que levantei os olhos a criança já estava com o dedo a meio caminho do buraco.
Vou só o tempo de gritar, “João Pedro, nã...” Ele já estava olhando pra mim assustado, “O que foi isso, Vikinha? O que foi isso?”

O QUE VOCÊ VAI SER QUANDO CRESCER?

Quem não se lembra do menino maluquinho? Aquele do Ziraldo! Se você nunca leu o Menino Maluquinho, onde passou sua infância? Você lembra que um dia quando ele cresceu, o que todos descobriram? Que ele não tinha sido um menino maluquinho, ele tinha sido um menino feliz. Bem, então é assim que tem que ser, as crianças tem mesmo que ser maluquinhas e molequinhas mesmo enquanto podem, porque um dia elas vão crescer, e aí não dá mais pra fazer, pensar ou falar maluquice.

Dentre essas maluquices estão as profissões que elas inventam. João Pedro, aos 4 anos dizia que sabia o que queria ser quando crescer: “Vendedor de animais”
“É mesmo?” Perguntavam os adultos entusiasmados. “E o que você vai vender?” Ao que ele respondia sem hesitar, “Barata, formiga, elefante, leão, cobra, mosquito, lagarto, tigre, onça, burro, gorila, passarinho...”

MIUDINHA OU VIKA?

No início do ano 2002 JP ganhou do pai mais uma tartaruguinha, que conseguia ser ainda menor que Pequenininha. Nessa mesma semana, eu cheguei em casa e fui apresentada à criaturinha.
Antes de ver qualquer coisa a mãe logo me avisou: “Você vai Ter uma surpresa.”
“Vika, vem ver.” Disse o pequeno de 5 anos de idade, levando-me para detrás da porta do quarto de sua mãe, onde encontrava-se a minúscula tartaruga. Então, estendendo o braço para ela, falou:
“Vika, Vika!”
Eu achei não Ter entendido, “Diga, filhinho?” Ele insistiu, “Vika!”
Continuei me fazendo de desentendida, “Sim, meu filho? Diga. Uma tartaruguinha nova, não é? Como é o nome dela?”
“Vika,” continuou risonho.
Onde é que você enfia a cara numa hora dessas? “Meu filho! ... Você botou meu nome numa tartaruga?” Ele acenou ainda sorrindo. “Numa tartaruga?! MEU NOME?! NUMA TARTARUGA?! Meu filho como é que você faz isso?”
Bom, com a criança fora do quarto descobri que fora idéia do doido do pai. Como é que eu ia explicar para aquele projeto de veterinário que não se bota nome de gente em tartaruga?
“Filhinho, venha cá. Olha só, vamos arranjar um outro nome pra sua tartaruguinha, senão vai dar confusão. Já existe uma Vika nessa casa, que sou eu. Que tal chamarmos...”
Bom, foi necessária uma boa dose de minha capacidade argumentativa para convencer a criança a rebatizar a pobre criaturinha que hoje leva o nome de Miudinha. Criativa a criança, não!

NÃO É A MAMÃE!

Essa é outra de quando João Pedro era um infante de uns dois anos de idade. Por mais que irmãzinha se esforçasse, não dava para substituir mamãe. Sempre que ele desconfiava que mamãezinha estava pra sair, ou quando descobria que ela já tinha saído, desatava a chorar.
Nesse dia, mamãe disse que ia ali rapidinho e voltava. Saiu enquanto eu dava banho no moleque. Quando ele estava pronto, de leite tomado, brincou um pouquinho, mas logo lembrou: “Cadê mamãe, Vika?” Opa... lá foi Vika inventar essa ou aquela história para distrair o pequeno da idéia de procurar mamãe. Mas todas as vezes que ele ouvia movimento do lado de fora, disparava:
“Mamãe chegou.”
“Ai, caramba, que é que eu faço co’esta criança?” Pensava enquanto torcia pra que mamãe chegasse mesmo.
Lá pelas tantas, a gente brincava de qualquer coisa, quando um barulho lá fora fez parecer que alguém abria o portão.
“Mamãe?”
“Acho que é. Vamos nos esconder?”
Risos.
“Vamos.”
“Vamos! Vem! Esconde que lá vem mamãe!”
Ele pulou e cima de minhas pernas e escondeu a cabeça. E aí ficou.
“Chegou, Vika?”
“Shhhh, quieto, pra ela não te ouvir!”
Qual mamãe, qual nada, eu queira mesmo fazer ele ficar sem chorar por um período mais longo de tempo.
Afinal, uns 3 ou 5 minutos se passaram e todo o barulho do lado de fora de casa cessou.
“É, Jão, acho que não chegou ninguém aí. Pode levantar.”
Silêncio.
“Jão?”
Dormira, coitadinho, todo alegre pensando que ia dar um susto na mamãe.

MISSÃO: BANHO

Com pouco mais de dois anos de idade, JP não era muito chegado a banhos. Eu acabara de voltar dos Estados Unidos e estava passando um tempo em casa, e dando uma de baby-sitter. Vejam o aconteceu num desses dias:
Missão: dar banho na criança.
Grau de dificuldade: quase infinito.
Obstáculos: criança correndo nua pela casa.
Isso não foi nada. Encurralei o pequeno num canto, levei-o ao banheiro. “Agora, nóis!”
Vendo-se completamente desarmando, prestes a levar a chuveirada, ele apelou para o maior de seus truques - a chantagem emocional:
“Vikinha, ô vikinha,” disse todo carinhoso, “não dá banho em João Pedro não, viiiiu!”

HEHEHE, viu, nego!
Chuveiro aberto. Missão cumprida. Vikinha agora tratava de recuperar as forças para Missão Impossível 2: tirar a criança do banho.

MINHA FILHA!

Foi no natal do ano 2000 que ele ganhou da vovó a tartaruguinha que levou o sugestivo nome de Pequenininha. Sem querer ganhar fama de pessimista, eu apostava comigo mesma quanto tempo aquela pobre criaturinha iria durar. Era um brinquedo na mão de um menino sem o menor juízo! Não podia dar um passo sem que ele a interrompesse. Virava carrinho em cima de outros brinquedos. Um outro dia apareceu com o casco pintado de verde!
“Vai morrer por esses dias,” eu dizia cá comigo. Mas não abria a boca para ninguém me chamar de pessimista, nem dizer que eu só falo bobagem.
Mas a questão é - a bichinha não morreu. E impressionava o relacionamento que ele tinha com a Pequenininha. Em instantes ela passava de reles brinquedo a filhinha querida. Sim, porque se existe algo que ninguém pode negar é o quão carinhoso João Pedro é. Hoje com cinco anos, ele vive pedindo à mãe uma irmãzinha, admitindo até a idéia de clonar a irmãzona. Parece um paizinho quando está junto de crianças mais novas.
Certo dia, “papai” JP levou sua filha Pequeninha à casa de um amiguinho que conseguia ser mais travesso que ele. Só houve um problema, o menino teve medo da tartaruga. Encostava o dedo bem devargarzinho para puxar logo em seguida.
Bem... crianças brincando no quintal, mães e irmãs sentiram-se seguras para ir conversar na cozinha. Até que de repente... um grito desesperado:
-UÁÁÁÁÁÁÁÁH!
“João Pedro! É João Pedro que está chorando, minha mãe!” Disparou a irmã.
Entra João Pedro cozinha a dentro num berro de desespero profundo:
-ELE MATOU MINHA FILHAAAAAA!!!!!
O rosto coberto de lágrimas, como um pai que chora a morte trágica de uma filha na flor da idade.

Calma, gente! A criança não tinha morrido não! O furacãozinho do amigo de JP resolveu pegar a pobre Pequenininha, e, ao vê-la mexer-se, atirou-a no chão. A bichinha coitada, encolheu-se toda, e assim ficou por um bom tempo. Tempo suficiente para o pobre “pai” achar que tinha realmente perdido sua filha.

QUANDO OLHO PARA TRÁS

Quando paro e olho para trás, não consigo deixar de pensar em como o tempo parece voar. Outro dia estávamos no hospital para ver aquela criaturinha mirradinha, com poucas horas de vida. Outro dia eu preparava o quarto para ele chegar do hospital. Outro dia, não faz muito tempo, sofríamos juntos, esperando o pior, quando víamos aquele pequeno ser com menos de um mês de vida murchar diante de nossos olhos – e não havia nada que pudéssemos fazer. Mas o problema foi diagnosticado a tempo, e no terceiro mês ele espichou e engordou tanto que já superava os outros de sua idade. E até parece que foi ontem. Vibramos ao vê-lo, finalmente, sorrir.

Parece que foi ontem que ele viajou para Brasília de avião para fazer uns exames no Sarah. E como bagunçou no avião! Enquanto todos estavam preocupados com seu possível problema, o pequenino se divertia inocente, fazendo meleira com o lanche trazido pela aeromoça.

Era o nosso bebê. Parecia de brinquedo. Um brinquedo que gostava de ser jogado para o alto e agarrado depois. Que gostava de dormir no colo, de barriga para frente, ouvindo canções de natal. Mas que ia ficando cada vez mais pesado.

Um brinquedo que aprendia a falar. Quando voltei dos Estados Unidos me identifiquei tanto com ele! Porque lá eu também tinha sido como um bebê tentando falar direito, igual a todo mundo.
Os ensaios de palavras “úa”(rua), “mã”(irmã), “mão”(irmão). As palavrinhas trocadas “cacholate,” “meresicórdia.” Os verbos mal-conjugados “Falou?” “Falei.” “Fez?” “Fazei.” Onde morava “mã”? Estava na ponta da língua, “Stadunidos.”

Um brinquedo com a careca tão branquinha que parecia de porcelana. Quem pode me recriminar por ter feito meu anel de aliança e ter ido dar umas voltinhas com ele na praça da alimentação do Iguatemi? Enquanto a mamãe e a vovó distraídas olhavam roupas na C&A. Que sensação quase ter de parar o carrinho porque as pessoas não se cansavam de olhar e comentar “Que lindinho!”, pensando que era meu filho!

Um brinquedo que aprendeu tudo tão rápido e cresceu tão de repente, que nem deixou a gente se acostumar com a idéia de que não é mais um bebê. Não dá mais pra jogar pra cima. Já associa idéias com habilidade e é capaz de pensamentos profundos. Ainda é uma criança, cheia de sonhos e fantasias, mas não é mais o neném fofucho e cheio de dobrinhas. É uma criança. Um menino. Um mocinho, ávido por aprender, por crescer, por viver. Daqui a pouco já sabe ler. E se a gente não abrir o olho, quando ninguém esperar, estará diante de um belo rapaz prestando vestibular. ... E formando-se. ... E casando-se. E aí, mais uma vez, essa irmã vai olhar para trás e vai dizer: “Foi outro dia, não faz muito tempo.” E vai tentar enxergar naquele homem aquele rostinho que um dia foi do seu bebê.
Sexta-feira, 3 de maio de 2002

E esse aqui eu escrevi em inglês para enviar aos meus amigos de Ohio, quando meu pequenino tinha 5 anos:
I lift my eyes and find him there, standing right in front of me. He’s come to say good-bye. I suddenly realize he’s not a baby anymore – his jeans, T-shirt and cool-looking sneakers make me see that. The boyish smile on his face tells me there’s a whole world inside that little mind – a world that’s getting bigger and full of secrets and dreams.

He asks me to kiss his teddy bear good-bye and I remember he’s just 5. He now wants to watch cartoons and demands only toys for gifts. He’s getting smarter but has lost that baby’s interest for clothes.

Five years have gone by so fast, and yet have meant so much… It seems like it was yesterday that I was holding that little new-born, ET-like, bald creature in my arms, and look how far he’s come now.

Five years is certainly not a lot to us, but it’s a whole life to him. Look how many things have been done, how much progress has been made! He’s learned to walk and to run, to speak, to eat, to kick a ball, and has developed into a good-looking healthy child. He’s even grown some hair!

He’ll soon be learning how to read and write. His first childhood is about to be over. A whole new phase is about to start, full of new surprises and discoveries. He’s now entering the new magic world of school, books and magazines. A few more years and he’ll be worrying about logarithms, Newton’s Laws, Globalization… and then college, girls, elections...

As for those first 5 years, they’ll never come back. I bring them back to my memory like scenes in a movie trailer – the mispronounced words, the easy-to-sing songs I taught him, the times I threw him up in the air, and so many other moments I’ll always treasure. He won’t remember many of them, but somewhere in his mind the things he’s learned and the people he loved will forever be stored.

He and his teddy bear kiss me good-bye and leave. He’s going back home with mom, 1 ½ hour away from me, ‘cause he’s got school tomorrow. And I’m left alone in my room, doing my legs, with the epilator he loves to play with.

This is just a reminder – if you have children or younger siblings, enjoy every moment you have with them.

They grow up so fast, and they need you so much today. Don’t wait till it’s too late, till they’re grown, ‘cause then they will neither need nor want you around.

V. Nov. 11, 2001

CHOCOLATE

Isso não foi nada, história mesmo foi o que ele aprontou com o irmão há uns dois anos atrás. Karina, uma menina da nossa igreja em Salvador, tinha ficado hospedada lá em casa para fazer vestibular na UEFS. Estavam então os três, Leandro, Karina e João Pedro assistindo a televisão no primeiro andar, quando o pequeno pediu:
“Léo, quero leite.”
Leo desce ao térreo, vai até a cozinha, mistura o leite com água e prepara-lhe uma mamadeira. Sobe de volta ao quarto da TV, dá a mamadeira à criança. Deita-se.
“Léo, quero leite com chocolate.”
Leo desce mais uma vez até a cozinha, coloca Nescau na mamadeira, faz a mistura, sobe, entrega o leite ao pequenino. Deita-se no intuito de continuar vendo sua televisão.
João Pedro não se contentou:
“Léo, tira o chocolate.”

VERRUGA

Numa noite de abril, brincávamos na rua depois que eu voltei do trabalho. O mocinho estava com uma verrugazinha no joelho, e alguém deve Ter-lhe dado uma boa explicação sobre isso, porque ele veio todo faceiro me pedir que contasse as estrelas.
E eu, inocentemente, comecei a contá-las, “Uma... duas... três...” até ser bruscamente interrompida, “NÃO CONTE NÃÃÃÃO! NÃO CONTE NÃO QUE NASCE VERRUGA!”
“Nasce o quê, menino?!?”
“Nasce verruga! Nasceu em mim, ó!”